Laboratório cria equipamentos de baixo custo a partir de materiais reciclados
Lab.EITA, da UFG, produz cadeiras de rodas, próteses e brinquedos que melhoram o bem-estar de pacientes
Kharen Stecca
Na Universidade Federal de Goiás (UFG), um laboratório se destaca com uma nobre missão: dar autonomia em forma de objetos para pessoas que nem sempre encontram opções no mercado para suas necessidades, ou que as encontram com preços inacessíveis. Por meio de madeira MDF, tampinhas de garrafa pet e até banners descartados surgem projetos que permitem a crianças e adultos caminhar, se alimentar e aprender. Juntando design, engenharia e o cuidado da fisioterapia, o Laboratório de Estudos Inventivos em Tecnologias Assistivas (Lab.EITA) transforma esses e outros materiais, por meio da impressão 3D, em objetos que dão a pessoas com algum tipo de deficiência a oportunidade de viver melhor.
Ao entrar no laboratório, somos convidados a conhecer uma série de produtos que variam de colheres adaptadas a modelos de coração feitos em 3D e que auxiliaram médicos a realizar uma cirurgia. São próteses para mãos, pés e cabeça, cadeiras de rodas e cadeiras adaptadas, suportes posturais (parapódios) para crianças com dificuldades de locomoção, de manter a posição em pé ou de sustentar o tronco. A infinidade de projetos e histórias encanta as pessoas que podem conhecer a iniciativa.
Quem coordena o laboratório é o professor Pedro Henrique Gonçalves, da Faculdade de Artes Visuais (FAV) da UFG. O laboratório trabalha em contato direto com a sociedade, atendendo demandas reais de famílias e instituições de saúde. O diferencial para outros laboratórios no Brasil reside na abordagem integral: o processo começa com uma avaliação física minuciosa, realizada por fisioterapeutas da equipe, para garantir que o dispositivo seja clinicamente adequado para o usuário. Além disso, o centro realiza um acompanhamento pós-entrega: três meses após o recebimento, a equipe entra em contato para avaliar o uso do material e realizar ajustes, um modelo de monitoramento que o destaca de outras iniciativas no país.
A equipe do projeto é multidisciplinar e conta com 15 bolsistas das áreas de design, fisioterapia, arquitetura e engenharia da computação. A intenção é que os projetos desenvolvidos no laboratório possam ser repetidos por outros profissionais. Para isso, a ideia é que os projetos sejam disponibilizados de forma on-line e gratuita para que qualquer pessoa baixe os arquivos e produza ferramentas de autonomia de acordo com o que necessita. Esta etapa ainda é parte do planejamento do laboratório, dependendo de recursos humanos para sua implementação.
Marca registrada
A criatividade no uso de materiais é uma marca registrada do laboratório. O projeto utiliza uma prensa — financiada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) — para transformar tampinhas de plástico (polipropileno) trituradas em placas coloridas e ultrarresistentes, que servem de base para cadeiras e outros equipamentos. Estima-se que cerca de 240 mil tampinhas já tenham sido retiradas do meio ambiente para esse fim, segundo Pedro Henrique. Até mesmo os banners descartados pela UFG ganham vida nova, sendo utilizados como reforço estrutural em cintas de fixação para garantir a segurança dos usuários.
O sucesso do projeto criado em 2024 gerou uma demanda que hoje ultrapassa a capacidade de produção. Atualmente, há uma lista de espera de mais de 200 pessoas, formada apenas pelo "boca a boca" de famílias atendidas, embora a capacidade de produção seja bem abaixo da demanda. De acordo com o professor, o projeto consegue entregar quatro parapódios por mês, por exemplo.
Essas cadeiras adaptadas também têm uma restrição. Elas são feitas em MDF, pois a máquina para prensar as tampinhas e produzir um material muito mais resistente não consegue fazer pranchas tão grandes. Um novo equipamento teria um custo de aproximadamente R$ 80 mil. O professor explica que esse deve ser um dos equipamentos buscados futuramente para o laboratório. Essa limitação de tamanho também acaba restringindo a produção para cadeiras apenas para crianças.
Até o momento, o laboratório já entregou 280 produtos e desenvolveu 52 projetos diferentes. Foram entregues 34 cadeiras de rodas e há dez pessoas na fila de espera. Para o parapódio, maior demanda do laboratório, existe hoje uma lista de espera de 70 pessoas, o que os ocuparia pelos próximos dois anos. Em breve, o laboratório será transferido para o Hospital das Clínicas da UFG e isso deve mudar o atendimento de demandas com o recebimento de pessoas atendidas no hospital.
Para aumentar a capacidade de atendimento, o professor conta que há um projeto sendo firmado com o sistema penitenciário. A proposta central é que a equipe do laboratório ensine aos reeducandos, no próprio presídio, como produzir as tecnologias assistivas. Isso envolve trabalhos manuais diversos, como costura e montagem, aproveitando a estrutura de trabalho já existente nas unidades prisionais. "O projeto atua em duas frentes: promove a ressocialização dos detentos por meio do trabalho e da nova capacitação, ao mesmo tempo em que aumenta a capacidade de produção do laboratório para realizar as entregas à comunidade", afirma Pedro Henrique. O projeto é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) e deve iniciar no segundo semestre.
Histórias de aquecer o coração
O impacto do laboratório já ultrapassou as fronteiras brasileiras, alcançando o continente africano por meio de uma parceria que nasceu em um congresso científico em São Paulo. "Após o contato de uma fisioterapeuta, a equipe produziu e enviou quatro cadeiras de rodas personalizadas para a África", conta o professor. Demonstrando o lado lúdico e humanizado do projeto, cada peça recebeu uma identidade especial: enquanto no Brasil muitas crianças escolhem os super-heróis para enfeitá-las, as cadeiras enviadas para o exterior foram tematizadas com animais como girafa, leão, tigre e elefante, transformando o equipamento de mobilidade em um objeto de alegria para as crianças atendidas.
O laboratório também já enviou cadeiras adaptadas para pacientes de estados como São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Bahia. Ele também recebe cadeiras comerciais para conserto e redistribuição para outras pessoas.
Outro destaque tecnológico do centro é a produção de capacetes cranianos, utilizados para a correção de assimetrias em bebês. "No mercado tradicional, esse equipamento é extremamente caro, chegando a custar cerca de R$ 10 mil, um valor proibitivo para muitas famílias", ressalta. Além do custo reduzido, o diferencial do laboratório, segundo o professor, está no acompanhamento do crescimento da criança: como o dispositivo é usado por um período curto e o bebê cresce rápido, a equipe realiza ajustes constantes, retirando pontos de pressão interna do capacete e, se necessário, produzindo um novo modelo para garantir a eficácia do tratamento.
Entre os projetos desenvolvidos, destacam-se um andador que custaria R$ 20 mil no mercado e é produzido com impressão 3D e tubos de antena de TV, e o parapódio, estrutura para manter a criança com dificuldades motoras em pé — um dos itens mais procurados. Além disso, há próteses e órteses de mão, orelha e nariz sob medida, adaptadores para pessoas com dificuldades motoras, impressão de modelos de órgãos, como corações com malformações extraídos de tomografias para estudo dos cirurgiões, e até brinquedos sensoriais, suportes e tudo o que for necessário para o bem-estar de pacientes.
Capta
O primeiro projeto realizado pelo grupo foi uma prótese de mão em 2024, confeccionada sob medida para um rapaz. O trabalho começou a ganhar corpo por meio do contato com o HC-UFG, inicialmente para o desenvolvimento de próteses faciais. Outro ponto de partida fundamental foi o Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer). Antes mesmo de existir uma parceria oficial, a equipe ia até a unidade de saúde para tentar ajudar pessoas que necessitavam de tecnologias assistivas após indicações internas.
Atualmente, o laboratório está em uma fase de transição para se tornar um Centro de Acesso à Pesquisa e Tecnologia Assistiva (Capta), uma implementação financiada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) para facilitar o acesso da população a essas tecnologias. Este será um dos primeiros centros desse tipo no Brasil, consolidando a UFG como referência nacional. O projeto conta ainda com financiamento da Fapeg e do CNPq.
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Fonte: Secom UFG
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