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Universidade Federal de Goiás
Seminário de Acessibilidade

Compartilhando experiências sobre acessibilidade

Criada em 28/11/19 14:54. Atualizada em 03/12/19 11:58.

Seminário promoveu compartilhamento de experiências e práticas inclusivas

Gustavo Motta

“Agora eu tenho uma noção melhor sobre como é o espaço do Instituto de Informática (INF)”, comemora o estudante Gabriel Silva Costa. Cego desde os 5 anos, o jovem ingressou no curso de Ciências da Computação no segundo semestre de 2018, mas demorou para ter sua própria noção espacial do prédio onde convive diariamente com colegas. “Pra gente que é cego, decorar um trajeto fica mais complicado, assim como é difícil saber onde estão corredores, salas, escadas e rampas de acesso”, confessa.

Quem caminha pelo Câmpus Samambaia, às vezes, o encontra trafegando pelas passarelas, em algumas ocasiões acompanhado por outra pessoa. “Esse acompanhamento é extremamente importante pra gente ir conhecendo os lugares”, aponta. O que poucos sabem é que o Núcleo de Acessibilidade da UFG tem dado múltiplo apoio ao estudante, muitas vezes o ajudando a se deslocar pelo chão recortado de irregularidades que caminha pela imensidão da Universidade. E quem usa a linha de ônibus 105 (Praça A - PC Câmpus) já encontra Gabriel se locomovendo para ir e voltar da faculdade. É essa liberdade e autonomia que humanizam existências e permitem descobrir novas possibilidades além do que os olhos deixam de mostrar.

“É muito gratificante ver que o nosso trabalho tem obtido bons resultados no atendimento a estudantes com algum tipo de deficiência física”, avaliou a diretora do Sistema Integrado de Núcleos de Acessibilidade (Sinace/UFG), Ana Claudia Antonio Maranhão Sá. Depoimentos e algumas demonstrações de boas práticas inclusivas fizeram parte do Seminário sobre Acessibilidade na UFG, evento que ocorreu durante a manhã e tarde da última quarta-feira (27). As atividades foram realizadas no auditório da Biblioteca Central e no prédio do Laboratório de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Mídias Interativas (MediaLab/UFG).

Pela manhã, o auditório recebeu a “Mesa Acessibilidade na UFG: Quem somos nós”, que contou com a participação de Gabriel, além da estudante Gabriela Martins Lima, do Instituto de Física (IF/UFG), que foi bolsista do núcleo. A docente Juliana Paula Felix (INF/UFG) completou a mesa, mediada pela professora Vanessa Santana, que dirigiu o Sistema Integrado de Núcleos de Acessibilidade (Sinace/UFG) entre 2014 e 2018.

Ana e Gabriel
Ana Claudia Sá e Gabriel Silva Costa participaram de mesa redonda sobre acessibilidade (Fotos: Jéssica Valerio)

 

Núcleo de Acessibilidade

Gabriel é paraense, mas reside em Goiânia desde os 9 anos. Foi nessa idade que ele iniciou sua formação na educação básica. “Infelizmente, a minha experiência escolar não foi das melhores. Eu acabei aproveitando poucos anos de estudos e, por isso, preciso revisar alguns conteúdos atualmente, no ensino superior”, lamentou. Apesar disso, o estudante conta que optou por ingressar na Universidade com objetivo de “contribuir para que a vida das pessoas com deficiência seja melhor”, e avalia que o Núcleo de Acessibilidade tem ajudado em sua passagem pela UFG.

Um dos espaços frequentados pelo estudante é o Laboratório de Acessibilidade Informacional (Lai/UFG), mantido em parceria do núcleo com o Sistema de Bibliotecas (Sibi/UFG). O trabalho ali realizado tem o objetivo de promover comunicação e informação acessíveis para pessoas com deficiência. Entre os serviços desempenhados, estão: impressão de conteúdos em braile, uso de softwares ampliadores de tela e adaptação de textos, diagramas e gráficos para cegos. Criado em 2016, o espaço funciona na Biblioteca Central do Câmpus Samambaia. É nesse local que Gabriel tem seu material acadêmico (como textos) adaptado às suas necessidades sensoriais.

Além disso, o núcleo tem elaborado um relatório pedagógico para cada estudante com deficiência que ingressa na UFG, como também atende solicitações de apoio pedagógico. O documento é encaminhado para as unidades acadêmicas, para que seja levado em consideração pelos coordenadores e professores ao acompanhar o desempenho dos graduandos. Ana Claudia Sá é atual diretora do Sinace, e conta que, apenas nesse ano, o Núcleo de Acessibilidade atendeu 108 ingressantes na graduação. “E temos expectativas para um número maior em 2020”, aguarda.

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Adaptação de materiais

Gabriela Martins Lima é estudante do IF/UFG e foi bolsista do Núcleo de Acessibilidade em 2018. Ela conta que, durante sua passagem pelo órgão, percebeu um crescimento numérico de ingressantes cegos, especialmente em cursos das Ciências Exatas. “Por isso, surgiu um novo desafio: de adaptar materiais em três dimensões, para que o estudante com deficiência visual ou cego possa evoluir em seu aprendizado e responder às atividades e provas”. Esse tipo de adaptação parte da ação de 16 bolsistas-monitores, mas também pode ser exercida por docentes, como é o caso de Juliana Paula Felix, que foi professora de Gabriel durante o primeiro semestre desse ano.

“Eu ministrei uma disciplina chamada ‘Fundamentos da Computação’, e foi um grande desafio aplicar os conteúdos com um estudante cego na turma”, isso porque “existem muitos símbolos e formas matemáticas, além de gráficos e diagramas com uma abstração que nos leva a utilizar recursos visuais como meios de explicação”, aponta a professora. Um dos momentos dos quais Juliana mais se recorda foi quando precisou utilizar um relógio de ponteiros como modelo de analogia para explicar um tema específico em sala de aula.

Emocionada, Juliana continuou: “Então o Gabriel chegou até mim e disse que não sabia o funcionamento desse aparelho, porque isso não fazia sentido nenhum para ele”. Isso a levou a trazer um relógio de casa e explicar para o estudante como funcionava essa tecnologia, tão comum ao cotidiano de pessoas que podem enxergar, mas sem nenhum significado para um jovem cego. “Essa experiência me mostrou como outros sentidos, como o tato, são importantes para a aprendizagem”. Em outro momento, a professora utilizou kits de montagem tridimensional e folhas de papel com líquido corretivo (que forma um relevo sobre a superfície) para que Gabriel pudesse responder às atividades avaliativas.

Já Gabriela abordou a experiência do próprio Lai/UFG com a adaptação de fórmulas matemáticas para o braille. “Esse é um trabalho que demanda muito tempo, pois é necessário entender a linguagem matemática”, conta, apontando que muitos dos bolsistas que realizam essas atividades estudam em outras áreas do conhecimento, como nas Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. Apesar disso, com os recursos disponíveis, os membros do Núcleo de Acessibilidade têm se dedicado a atender todos os estudantes cegos com adaptação de materiais e acompanhamentos durante a graduação, entre outras atividades de atenção a esses discentes.

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Histórico

Em momento anterior à mesa, Ana Claudia Sá realizou um histórico sobre a acessibilidade na UFG, tema que começou a ser pensado em 2008. O Núcleo de Acessibilidade em Goiânia foi criado em 2011, sendo que o Sinace foi instituído em 2014. O sistema tem o objetivo de promover discussões para a criação de ações inclusivas no âmbito de toda a comunidade universitária. “Ele foi criado quando decidimos que os núcleos de acessibilidade em Goiânia, Cidade de Goiás, Jataí e Catalão deveriam caminhar juntos. O Sinace conta com servidores das pró-reitorias e órgãos, isso para que representantes de toda a Universidade participem desse trabalho, cada vez mais necessário”.

O funcionamento do sistema é regido pela Resolução do Conselho Universitário (Consuni) 43/2014, que vinculou o órgão à Pró-Reitoria de Graduação (Prograd/UFG). Desde então, a UFG é considerada referência em ações inclusivas e de acessibilidade entre as instituições públicas de ensino. Já a Política de Acessibilidade, documento aprovado em 2017, delimitou oito eixos de direção às ações desse tipo: inclusão e permanência; infraestrutura; apoio pedagógico e curricular; acesso à informação e comunicação; catalogação de dados sobre acessibilidade; extensão; ensino, pesquisa e inovação.

Da esquerda à direita: Pró-Reitora de Graduação, Jaqueline Araujo Civardi; Vice-Reitora Sandramara Matias Chaves e diretora do Sinace/UFG, Ana Claudia Antonio Maranhão Sá
Da esquerda à direita: Pró-Reitora de Graduação, Jaqueline Araujo Civardi; Vice-Reitora Sandramara Matias Chaves e diretora do Sinace/UFG, Ana Claudia Antonio Maranhão Sá

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Evento

O Seminário sobre Acessibilidade na UFG chegou à sexta edição. A iniciativa é uma realização do Núcleo de Acessibilidade em Goiânia, por meio do Sinace e da Prograd. Durante a tarde, ainda foi realizada a “Mesa Acessibilidade para além da UFG - O mundo do trabalho”, com a participação do servidor Robson Fernandes de Aguiar (Diretoria de Acompanhamento e Desenvolvimento de Pessoas  - DAD/UFG), e da estudante egressa do curso de Licenciatura e Bacharelado em Letras-Português, Jandira Azevedo da Silva (Faculdade de Letras - FL/UFG), ambos cegos, com mediação da professora Ana Claudia Sá.

O espaço do MediaLab recebeu a participação de bolsistas-monitores do Núcleo de Acessibilidade UFG, que compartilharam experiências de atuação com a comunidade acadêmica que apresenta alguma deficiência física. Todas as atividades contaram com a participação de intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (Libras), cujos serviços podem ser solicitados junto à Faculdade de Letras. Na abertura da programação, ainda foi realizada uma apresentação musical, conduzida pela musicoterapeuta Kelly Tobias e pelo estudante do IF/UFG, Maurício Andrade Garcez Henrique. Ambos cantaram juntos, enquanto Kelly tocava um teclado.

O repertório foi composto por canções como a adaptação em português de The Circle of Life, composta por Elton John e faixa de abertura para a trilha sonora original de “O Rei Leão” (1994). O Sole Mio, de Giovanni Capurro, The Prayer, de Céline Dion, e uma canção autoral de Maurício intitulada “Preguiça” completaram o repertório.

Apresentação no Seminário de Acessibilidade
Kelly Tobias (teclado) e Maurício Henrique realizaram apresentação musical

 

Fonte: Secom/UFG

Categorias: Humanidades