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Universidade Federal de Goiás
China

O que a economia da China pode ensinar ao Brasil?

Em 11/02/26 15:25. Atualizada em 12/02/26 10:57.

Professor da UFG estuda modelo econômico chinês e como pensar novas estratégias para o Brasil e o Ocidente

 

China
Para os chineses, indicadores empíricos de bem-estar, como garantia de trabalho, estudo e lazer, estão em primeiro lugar | Foto: Liu Jinhai/Xinhua

 

Kharen Stecca

"Crescer o bolo para depois distribuí-lo". Essa é a famosa receita de Antonio Delfim Netto, ministro da Fazenda do Brasil de 1967 a 1974, sobre como deveria ser o desenvolvimento econômico do Brasil. Para o professor da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas da Universidade Federal de Goiás (Face/UFG), Tiago Camarinha, há uma lógica nessa frase: "O problema é que você não consegue atender o bem-estar social se o seu bolo for muito pequeno. Você não tem como dar uma boa festa, com vários convidados, se você não consegue colocar na mesa um bolo para atender todo mundo".

O professor avalia que, na discussão econômica, é preciso encontrar o lugar dessa dinâmica de "fazer o bolo crescer". Tiago, que esteve na China em um pós-doutorado em que estudou o modelo econômico chinês, explica onde a fórmula daquele país se difere: "O problema é que o capitalismo não serve o bolo, ele quer deixar o bolo crescer infinitamente. A China sabe que o bolo tem que ser servido e é o propósito dele. É um aprendizado que o país vem fazendo desde 1949, com a transição para o socialismo".

O professor explica que, embora o governo chinês tenha adotado inicialmente uma ideia de desenvolvimento similar àquela do Brasil na época da ditadura militar, ele começou, de fato, a dividir esse bolo a partir dos anos de 2010, permitindo que a população participasse do processo de crescimento. Portanto, segundo ele, o crescimento econômico chinês serve a um propósito maior: o bem-estar da população.

Para Tiago, essa priorização do bem-estar humano gerou resultados significativos que chamam a atenção de economistas de diversas vertentes. "A China demonstrou ser um sucesso de crescimento e desenvolvimento econômico, com um enriquecimento sistêmico e alargado para toda a população".

Após 2010, quando a questão do bem-estar passou a ganhar mais importância na política econômica, o país concentrou-se também na dimensão social e na questão ambiental. "O resultado é que a China agora é vista no debate internacional como um país que dá exemplo ao bater metas de desenvolvimento e por ter realizado uma transformação tecnológica com um benefício ambiental que nunca existiu na história da humanidade. Os indicadores de bem-estar incluem a eliminação da pobreza extrema e a elevação da renda da população", ressalta o professor.

Em contraposição ao neoliberalismo, a lógica econômica chinesa não pode ser ignorada. O neoliberalismo, como explica o professor, é uma receita econômica praticada a partir dos anos de 1970, que pressupõe a ineficiência do Estado, defendendo a atuação exclusiva do mercado. "Contudo, a crise de 2007–2008 fez com que a popularidade dessa receita diminuísse, e o principal país a apresentar um caminho diferente para substituí-lo foi a China. No modelo chinês, o papel do Estado na economia é de enorme importância, sendo fundamental inclusive para fazer o mercado funcionar corretamente".

Dada a busca global por alternativas ao neoliberalismo, que vem apresentando cada vez mais sinais de colapso, estudar o caso chinês é crucial. O pesquisador explica que o mundo todo, inclusive o Brasil, está tentando aprender com isso. A China, segundo ele, desenvolveu um modelo próprio ao aprender com o pensamento econômico externo (que é de origem eurocêntrica, fundado por europeus como Adam Smith) e adaptá-lo às circunstâncias do seu próprio país.

Essa autonomia serve de inspiração, mas a posição do especialista é clara: "O Brasil, nós brasileiros, temos que encontrar o nosso caminho, e, para isso, podemos aprender com a história de povos amigos e irmãos, como o chinês, mas não devemos copiar o que é feito lá. Não é possível transplantar um modelo, visto que cada povo tem a sua cultura e o seu jeito de ser".

 

Leia também: UFG amplia cooperação com a China em saúde e agricultura familiar

 

Tiago Camarinha
Professor Tiago Camarinha (Face/UFG) em evento na China | Foto: Weng Zhe

 

Experiência in loco: para além dos estereótipos

A vivência de Tiago na China permitiu desenvolver um olhar mais aprofundado, que vai além dos estereótipos e da propaganda. Embora, como cientista, ele afirme não ser tão afetado por esses estereótipos, ele reconhece a existência de contrastes culturais notáveis. Ele cita o exemplo do hábito de cuspir na rua em público sem pudor ou de arrotar durante conversas. No entanto, a visão científica reconhece que tal comportamento é um processo de construção social que não muda "o fato de todas as culturas serem valiosas igualmente, cada uma a seu modo".

Outro estereótipo comum é a imagem do chinês "sofrido", cujo trabalho extenuante serve apenas para o crescimento econômico. O pesquisador observa que o trabalho duro na China é visto sob uma ótica de contribuição para o fortalecimento de todo o país, e não apenas como um benefício individual. Essa ideia de que o trabalho fortalece a sociedade como um todo reflete um senso coletivo maior, algo bem específico daquela população.

Em relação ao sistema político, o estereótipo de que a China é uma ditadura decorre do fato objetivo de que um único partido político, o Partido Comunista, comanda o Estado. Contudo, o especialista aponta que a população em geral não está preocupada com discussões profundas sobre sistemas políticos (democracia, ditadura, socialismo ou capitalismo); o que lhes interessa é o bem-estar da família, ter trabalho, estudo e lazer.

A visão chinesa é pragmática, segundo Tiago. "O sistema político que conseguir entregar o melhor bem-estar para a população é o melhor sistema político. Eles são guiados pelos indicadores empíricos de bem-estar do povo, como a elevação da renda e a eliminação da pobreza extrema".

Pós-Olimpíadas e pandemia

A pandemia de covid-19 se estabeleceu como um divisor de águas na geopolítica global. "O período sanitário colocou um contraste nítido entre a China e o Ocidente. Enquanto o governo chinês adotou uma abordagem bem científica no tratamento da pandemia, o Ocidente enveredou pelo negacionismo científico. Como resultado, a China saiu da pandemia com um status na arena internacional muito mais elevado e, a partir de 2020, o país continuou subindo, enquanto o Ocidente em geral declinou cada vez mais".

Essa trajetória de crescimento chinês contrasta fortemente com o caso brasileiro. O pesquisador lembra que, até os anos de 1990, a economia brasileira tinha basicamente o mesmo tamanho da economia da China. Desde então, a China avançou e se desenvolveu de forma contínua, enquanto a performance econômica do Brasil decaiu demais a partir de meados dos anos 2010.

A demonstração do desenvolvimento chinês ganhou destaque global nas Olimpíadas. Naquele período (por volta de 2008), o país enfrentava problemas de desigualdade social, poluição e destruição do meio ambiente. A mudança de foco se deu a partir dos anos 2010, quando o bem-estar da população começou a ganhar mais importância na política econômica, dando atenção à dimensão social e ambiental. O resultado dessa mudança é que a China demonstrou bons indicadores de desenvolvimento socioeconômico.

Bem-estar ou ameaça à liberdade?

A busca pelo bem-estar social máximo e pela estabilidade por meio de um planejamento rigoroso apresenta um paradoxo e levanta a questão sobre qual é o limite desse modelo. O pesquisador aponta que a intervenção excessiva, embora focada na proteção da vida, pode suprimir a liberdade e a dimensão social. Durante a pandemia, por exemplo, a aplicação estrita das decisões dos cientistas levou ao confinamento intenso (lockdown), uma situação que o pesquisador comparou a prender a população 'numa espécie de matrix', negligenciando o bem-estar mental e o contato social.

O problema central é que em um sistema econômico que atende formalmente às necessidades materiais e imateriais, o objetivo da vida pode se tornar, inconscientemente, apenas "permitir a acumulação infinita de capital". E o ser humano é bem mais do que isso.

O risco, inerente a qualquer planejamento que priorize excessivamente o controle, é que ele reforce a alienação e transforme a população em um "gado feliz, mas ignorante" (conforme a analogia à obra Admirável Mundo Novo), cujas tensões são gerenciadas para evitar a revolução, afirma o pesquisador. "Assim, os indivíduos podem não notar que estão vivendo em um sistema desenhado que poderiam, deliberadamente, modificar".

O conceito de democracia

O professor explica por que há tanta discrepância na avaliação do sistema chinês, especialmente por parte do Ocidente. "Essa discrepância é profundamente enraizada na construção narrativa em torno da ideia de democracia liberal. Historicamente, essa narrativa ocidental teve grande sucesso em descrever sistemas políticos como o chinês — onde um partido político comanda e está no controle do Estado, ou seja, o Partido Comunista — como um sistema autoritário e ruim. É uma visão eurocêntrica, como quase toda a nossa literatura, e essa visão desconsidera o fato de que a população em geral não está preocupada com discussões filosóficas profundas sobre democracia ou ditadura".

Para os chineses, os indicadores empíricos de bem-estar do povo, como a garantia de trabalho, estudo, lazer e uma vida de bem-estar para a família, estão em primeiro lugar. Assim, o sistema chinês é pragmático: o melhor sistema político é aquele que conseguir entregar o melhor bem-estar para a população, independentemente dos rótulos que o Ocidente queira atribuir.

Adicionalmente, o especialista sugere que é preciso analisar valores ocidentais, como a liberdade, de acordo com o contexto chinês. "A liberdade excessiva nas redes sociais e na esfera pública, típica das democracias liberais, acaba por gerar muita oportunidade para os enganadores, que se aproveitam desta liberdade para divulgar fake news ou narrativas anticientíficas, como no caso do negacionismo durante a pandemia. O governo chinês, sendo mais controlador, consegue evitar que essas plataformas digitais sigam esse 'caminho perigoso', o que representa uma vantagem no gerenciamento do desenvolvimento da sociedade".

O professor ressalta, entretanto, que a questão não é adotar um regime como o chinês, mas utilizar as experiências desse povo em relação à economia e à política para pensar novas alternativas e construir novos modelos a partir da nossa cultura e da nossa realidade.

Disciplina sobre a China na pós

O trabalho do professor Tiago Camarinha como acadêmico visitante na Universidade Normal do Nordeste da China, na cidade de Changchun, é uma das atuais pesquisas de pós-doutorado no exterior financiadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O professor planeja ofertar uma disciplina presencial em nível de pós-graduação na UFG no semestre letivo 2026-1 intitulada China: economia de mercado socialista, e convida pós-graduandos de todas as áreas a se inscreverem, entrando em contato com a coordenação do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) ou do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais (PPGCPRI).

Para saber mais sobre o assunto, acesse os artigos Formal similarity and real distinction between capitalist and socialist economic planning e As diferenças entre capitalismo ocidental e socialismo chinês.

 

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Fonte: Secom UFG

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