Coaxar dos sapos, vape e moda: ciência invade o cotidiano no Pint of Science 2026
Mudanças climáticas, cigarros eletrônicos e brasilidade ancestral estiveram na programação da Lado Leste Cervejaria
Alexandre Elias*
Arthur Gabriel
O que o coaxar dos sapos tem a ver com as alterações climáticas? Foi com questões inusitadas como essa que o público da Lado Leste Cervejaria, em Goiânia, mergulhou em debates científicos durante as três noites do Pint of Science 2026 – festival que leva ciência para bares e restaurantes de todo o mundo.
A capital integrou a programação do evento de divulgação científica pelo terceiro ano consecutivo. Este ano, mais de 500 pessoas participaram das atividades realizadas na Lado Leste Cervejaria e no ThorDön Bierhaus Pub, no Setor Jaó, com direito a distribuição de brindes e muita descontração.
Acesse aqui o álbum de fotos do evento.
CIÊNCIA NO ROLÊ
O festival Pint of Science foi criado em 2012, na Inglaterra, e chegou ao Brasil em 2015. O evento reúne cientistas, especialistas e professores em bares e restaurantes para discutir temas relevantes em diversas áreas do conhecimento. O festival acontece todos os anos simultaneamente em mais de 25 países.
Em Goiânia, o evento é organizado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), por meio da Secretaria de Comunicação (Secom), em parceria com a Pró-Reitoria de Pós-Graduação (PRPG) e a Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI).
Em 2026 o Brasil foi o país com o maior número de municípios participantes: 203 cidades, segundo a organização nacional do evento. Além de democratizar o acesso ao conhecimento científico, o festival contribui para despertar vocações, fortalecer a educação e valorizar a produção científica nacional.
Na segunda-feira (18/5), o professor Rogério Bastos, do Departamento de Ecologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFG, ministrou a palestra "Não precisa engolir, mas é bom ouvir: o coaxar dos sapos e as alterações climáticas".
Durante a conversa, o pesquisador destacou que sapos, rãs e pererecas funcionam como importantes bioindicadores ambientais. Alterações na temperatura, na disponibilidade de água e nas condições do habitat refletem diretamente na sobrevivência dessas espécies. A palestra apresentou um convite simbólico ao público: ouvir os sons da natureza para compreender mudanças silenciosas que já atingem os ecossistemas.
Outro tema debatido abordou os efeitos da destruição de áreas naturais sobre os anfíbios. Pesquisadores apontam que quase 600 espécies enfrentam declínio populacional. A redução desses animais não ameaça apenas sua existência, mas também representa um grande desafio para o equilíbrio ecológico. Os anfíbios possuem papel importante no controle natural de insetos e ocupam posição estratégica na cadeia alimentar.
Uma participante questionou se a reprodução dos sapos poderia sofrer influência semelhante à observada em algumas espécies de peixes, nas quais a temperatura da água interfere diretamente em processos reprodutivos. A discussão abriu espaço para explicações científicas sobre a dependência que anfíbios possuem das condições ambientais. Temperatura, umidade e disponibilidade de ambientes aquáticos interferem no ciclo de vida, no desenvolvimento de ovos e girinos e até no sucesso reprodutivo de diversas espécies.
Leia também: Festival leva debates sobre saúde, filosofia e divulgação científica para a mesa do bar
Cigarro eletrônico: o "glamour" que esconde riscos
No segundo dia (19/5), um alerta importante de saúde pública com uma palestra sobre o vape, o cigarro eletrônico que vem causando problemas sérios de saúde, em especial entre os jovens, com o professor da Faculdade de Medicina da UFG Evandro Scussiatto.
Como o cigarro eletrônico passou a ser confundido como algo mais seguro que o convencional? E por que o ser humano gosta tanto desse mecanismo? Com essas indagações, o professor abordou como os vapes trazem impactos significativos à saúde e foram mistificados na sociedade como uma espécie de alternativa segura ao cigarro convencional.
Evandro explicou que, desde a pré-história, o hormônio dopamina configura-se como um mecanismo continuamente aprimorado ao longo do tempo. A substância atua como reforço motivacional, uma vez que é liberada em momentos de prazer. Ele alerta que a dopamina começa a se tornar um problema a partir do momento em que passa a ser mediada por alguma substância, como a nicotina.
"As gerações mais jovens passam a se interessar pelo novo design dos vapes e a construir uma nova identidade, que é despertada com a experiência multissensorial dos cigarros eletrônicos, ao carregarem em si dispositivos de fumaça saborizados. É válido relembrar que a indústria do tabaco também coordena a indústria dos cigarros eletrônicos", detalhou o professor.
Dados da Associação Paulista de Medicina (APM) apontam que 5,6% da população com 14 anos ou mais utilizam os dispositivos no Brasil. Já entre os adolescentes de 14 a 17 anos, a prevalência é maior: 8,7% dos jovens consumiram vapes no último ano.
O professor explicou que o dispositivo é composto por uma fonte de calor, que é responsável por vaporizar uma substância em gel (alimentício), concentrados de nicotina, presente no interior de todos os modelos de cigarro eletrônico. Ainda não há, segundo ele, pesquisas concretas para contabilizar a quantidade de nicotina presente nestes dispositivos. Porém, estima-se que há uma alta concentração da substância.
A principal doença ocasionada pelos cigarros eletrônicos é a EVALI, que consiste em uma lesão pulmonar que pode ocasionar insuficiência respiratória e morte. O professor apontou que em um período de aproximadamente um ano 2.800 pacientes nos Estados Unidos foram diagnosticados com a doença e 68 pacientes morreram.
Outra doença associada ao uso de cigarros eletrônicos é a bronquiolite obliterante, popularmente conhecida como "pulmão de pipoca". Ela ocorre quando os bronquíolos (as menores vias aéreas dos pulmões) são inflamados e cicatrizados, causando a obstrução permanente da passagem de ar.
"Recentemente uma pesquisa feita aqui no Brasil aponta que 15% da população é fumante, o que está atrelado ao uso destes dispositivos eletrônicos. A região Centro-Oeste é a que mais apresenta adolescentes entre 13 à 17 anos que consomem cigarros eletrônicos – mais de 40% deles se identifica como usuário. É possível que, nos próximos anos, se tenha pessoas jovens desenvolvendo câncer de pulmão", afirmou o professor.
Moda, cultura e identidade
A professora Lorena Abdala, da Faculdade de Artes Visuais da UFG, conduziu a palestra que fechou a programação na Lado Leste Cervejaria, na quarta-feira (20/5). A pesquisadora debateu a moda como linguagem cultural e instrumento de construção de identidades, com destaque para o conceito de "brasilidade ancestral".
Ao longo da exposição, Lorena questionou padrões históricos associados ao vestuário e destacou a influência das matrizes indígena, africana e europeia na formação cultural brasileira. A professora também apresentou a ancestralidade como elemento ligado ao pertencimento coletivo e à valorização das próprias referências culturais, em contraposição à reprodução automática de modelos externos.
O encontro também marcou o espaço de divulgação das produções acadêmicas desenvolvidas no curso de Design de Moda, que neste ano completa três décadas de existência na UFG. Após os debates, o público acompanhou desfiles apresentados por jovens modelos, que transformam as discussões da noite em experiências visuais. As apresentações trouxeram referências culturais brasileiras e reforçaram a proposta do evento: utilizar a moda como narrativa capaz de conectar história, identidade e a expressão social.
* Alexandre Elias é estagiário de Jornalismo sob orientação do jornalista William Correia.
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Fonte: Secom UFG
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