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Universidade Federal de Goiás

Pesquisas estudam a dor em recém-nascidos

Criada em 17/04/13 16:04. Atualizada em 21/08/14 11:46.

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Publicação da Assessoria de Comunicação da Universidade Federal de Goiás 
ANO VII – Nº 57 – ABRIL – 2013

Pesquisas estudam a dor em recém-nascidos

Estudos apontam para a importância do envolvimento da mãe nos cuidados hospitalares pós-natal auxiliando no conforto do bebê em procedimentos dolorosos

Texto: Kharen Stecca  | Fotos: Carlos Siqueira


Em um passado não muito distante, antes da década de 80, acreditava-se que o recém-nascido não sentia dor. Sim, essa ideia já existiu e diversos procedimentos foram feitos sem nenhum cuidado com a dor que eles sentiam. Hoje, felizmente, essa ideia não só mudou, como existem especialistas que estudam a dor nos recém-nascidos.


A professora Thaíla Castral, da Faculdade de Enfermagem da UFG é uma dessas especialistas. Segundo ela, uma série de parâmetros fisiológicos e comportamentais se modifica no bebê diante de um estímulo doloroso, desde a frequência cardíaca e respiratória, a saturação de oxigênio, a pressão arterial e concentrações hormonais, até o movimento corporal, com distensão dos membros, a mímica facial e o choro.


Bebês já nascem expostos a procedimentos que provocam dor e não se sabe ao certo as consequências que isso pode acarretar. Thaíla Castral lembra que mesmo uma criança saudável sofrerá três procedimentos dolorosos em seus primeiros dias de vida: duas doses de vacina, a administração de vitamina K para evitar a hemorragia e o teste do pezinho. Já uma criança que necessita de cuidados médicos intensivos ao nascer, como um bebê hospitalizado em uma Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) chega a sofrer de 10 a 14 procedimentos diários que podem causar dor. Para tentar evitar não só os procedimentos desnecessários, mas também aliviar os procedimentos dolorosos para o recém-nascido, a professora está implementando no Hospital das Clínicas da UFG, com o apoio da Fundação de Amparo a Pesquisa no Estado de Goiás (Fapeg) uma pesquisa que visa fazer um diagnóstico situacional da exposição dos recém-nascidos à dor na UTIN, e incrementar o atendimento com estratégias e protocolos de atendimento  que visem amenizar a dor nesses bebês, tudo baseado em evidências científicas.


Segundo Thaíla Castral, estratégias simples podem evitar o desconforto dos bebês, como amamentar o bebê antes de realizar coleta de sangue ou administração de glicose. Otimizar o número de exames, utilizando uma mesma amostra de sangue para diversos procedimentos também é uma importante estratégia.

 

auto regulação neonatal


Autorregulação dos bebês - A pesquisadora canadense Fay Warnock, professora da University of British Columbia School of Nursing, no Canadá, esteve em Goiânia no final de fevereiro para participar de atividades de pesquisa na Faculdade de Enfermagem da UFG. No dia 27 de fevereiro a pesquisadora realizou uma palestra que tratou sobre a autorregulação dos bebês em contextos de dor, promovida pelo Grupo de Estudos em Saúde da Mulher, do Adolescente e da Criança e com o apoio da Coordenação do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Enfermagem da UFG.


A autorregulação é a capacidade do bebê de se confortar, organizando seu comportamento e parâmetros fisiológicos diante de um estímulo estressante, para retornar ao estado normal, chamado de homeostase. Ela fez um panorama da pesquisa sobre a dor em recém-nascidos.


Pesquisadores canadenses são hoje referência nessa área de pesquisa. Durante sua palestra, ela destacou as principais teorias relacionadas à dor em bebês e explicou sobre as diversas escalas de medição da dor que consideram elementos como expressão facial, contração de membros, nível de cortisol (hormônio responsável pelo controle do estresse) no sangue e na saliva, o choro e o estado de sono e de vigília. Ela explica que as escalas são importantes e precisam ser bem manuseadas pelo profissional de enfermagem, mas ressaltou a necessidade de mais pesquisas e novas formas de mensuração, já que estamos tratando de pacientes que não conseguem demonstrar a dor verbalmente e que, no entanto, podem sentir até mesmo mais dor do que um adulto, já que a distância entre as terminações nervosas e o cérebro é bem menor.


Segundo Fay Warnock, ainda há poucos estudos longitudinais que acompanharam bebês expostos a contínuos procedimentos dolorosos durante seu desenvolvimento, mas a partir do que já existe, há a perspectiva de que essas crianças modificam sua forma de reagir à dor e podem ter traumas e problemas neurodesenvolvimentais.

 

Bebe neonatal


Contato mãe-bebê – Fay Warnock, ao falar sobre o panorama da pesquisa da dor em neonatos, levanta uma importante constatação. A maior parte das pesquisas realizadas até agora deixa a mãe invisível no processo, no entanto, algumas pesquisas que consideraram essa ligação entre mãe e bebê mostram que ela possui um papel fundamental na autorregulação.


Segundo a Teoria do Apego, criada pelo psiquiatra e psicanalista, John Bowlby, a ligação com a mãe ou principal cuidador é decisiva na criação de uma criança segura e, no contexto das pesquisas sobre dor, mais amparada e capaz de autorregular seu organismo em procedimentos de dor. A pesquisa da professora Thaíla Castral, foi uma das primeiras a considerar a influência da díade mãe-bebê no contexto da dor.


Thaíla Castral estudou o uso da posição canguru (contato pele-a-pele entre mãe e recém-nascido) na autorregulação do bebê durante um procedimento de dor, que era o teste do pezinho. O bebê é colocado apenas de fralda, em uma posição vertical, entre os seios da mãe. Esta fica só de avental, deixando o colo livre para o contato com a criança.


Os bebês foram colocados  na posição canguru por 15 minutos antes da realização da coleta de sangue do calcanhar, permaneceram dessa forma durante o exame e por mais 15 minutos após o exame. O estudo foi realizado com 42 mulheres e seus bebês, recrutadas no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP.


Durante a pesquisa, percebeu-se que o contato com a mãe e seu estresse influenciam diretamente o estresse do bebê. Ou seja, se a mãe está calma, o bebê também permanece calmo. A posição é efetiva tanto para a mãe, quanto para o bebê.


Apesar das constatações, Thaíla registra que a posição canguru não é utilizada com frequência. Das mães que participaram do estudo, 70% estavam utilizando pela primeira vez. “O método é sempre benéfico e diminui o quadro de dor dos recém-nascidos. É uma intervenção natural e sem custos, sendo efetivo mesmo quando a mãe apresenta um quadro de depressão e ansiedade”, explica Thaíla Castral. Ela ressalta que além de envolver a mãe no cuidado pós-natal do bebê, é necessário atentar para o cuidado psicológico da mãe que, tendo seu nível de estresse controlado, pode auxiliar efetivamente o bebê em sua autorregulação em procedimentos de dor.

 Vinculo bebe neonatal

Vínculo entre mãe e bebê garante sobrevivência

As pesquisas com relação a dor mostram que o papel da mãe no apoio ao bebê é fundamental. O aconchego e amparo que a mãe pode oferecer ao bebê por meio do toque, do contato físico, da voz é essencial não só para o bem-estar do bebê, em sua autorregulação, como também é indispensável à sua sobrevivência, como explica a professora do curso de Psicologia da UFG, Elizabeth Landi: "A sobrevivência física e psíquica de um bebê dependem do cuidado da mãe ou de alguém que cumpra o seu papel, isso  é fundamental na definição de sua relação com o mundo".


Segundo ela, na psicanálise define-se que há dois processos de constituição do sujeito: a alienação e a separação. No primeiro momento da vida do bebê, a mãe é o que há de mais importante na vida da criança. E a mãe também coloca a criança em um lugar fundamental. “Essa ligação é chamada alienação e é fundamental para a definição do sujeito”, explica a professora. Essa fase para alguns autores começa a ser substituída pela fase de separação por volta do sexto ao oitavo mês, quando a criança começa a perceber-se como sujeito, mas é próximo dos dois anos que essa capacidade de separação começa a ficar mais clara.


Mas até que essa segunda fase comece, a díade mãe-bebê é decisiva no bem-estar infantil. Mesmo assim, o serviço de saúde nem sempre considera esse papel nos cuidados com o bebê. Elizabeth Landi acredita que estamos vivendo um processo de mudança: "Saímos do parto feito em casa para um ambiente urbano, higienista, em que o parto chegou a ser visto como um processo de adoecimento, agora precisamos caminhar para um outro momento", ressalta. Foi em 1993 que o Ministério da Saúde estabeleceu normas para o  alojamento conjunto de mães e bebês, mas até hoje há locais em que isso não ocorre. A licença-maternidade já é de seis meses para servidoras públicas e pode ser estendida para os  trabalhadores da iniciativa privada, conforme anuência do empregador. "O modo como o vínculo entre mãe e bebê é estabelecido tem implicações para toda a vida do indivíduo", acrescenta. Por isso, é fundamental que o atendimento de saúde e as pesquisas considerem esse vínculo e incluam a presença da mãe em todo o atendimento neonatal.

Estratégias para o alívio da dor

Algumas medidas mostram-se efetivas no alívio da dor em recém-nascidos e devem ser adotados pelos profissionais de saúde para o bem-estar dos pacientes:
• Colocar o bebê no peito cerca de 5 minutos antes para amamentação, durante e depois do procedimento de dor;
• Administração de glicose ou sacarose 2 minutos antes do procedimento de dor
• Posição canguru (contato pele-a-pele entre o bebê e a mãe ou cuidador) 10-15 minutos antes, durante e depois do procedimento de dor;
• Melhor programação dos procedimentos em bebês internados, evitando repetição desnecessária de pulções sanguíneas, por exemplo. 

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